quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O segredo de um presente

Era para ser uma surpresa. Mas foi muito, muito além disso.
Eu tinha 7 anos naquele mês de dezembro e estava com um problema: mais uma vez era preciso dar um presente de Natal a cada membro da família.
Eu era muito apegado à minha avó. Ela amava os netos incondicionalmente e era sempre brincalhona, como só as pessoas sábias conseguem ser. Em troca, nosso amor por ela era imenso.
Para mim, um presente especial teria de ser algo que ela achasse particularmente precioso. Eu já tinha uma idéia: sempre observava minha avó no ritual de se arrumar. Ela era muito cuidadosa com a aparência: vestia-se com esmero, penteava-se meticulosamente – e no fim de tudo abria uma gaveta da cômoda, de onde tirava com cuidado um frasco lapidado de perfume. Borrifava o pescoço com uma ou duas pequenas nuvens do vaporizador e depois o frágil vidrinho desaparecia novamente dentro da cômoda.
Tinha de ser aquele perfume! Quando não havia ninguém por perto, abri a cômoda de minha avó, tirei com cuidado o frasco e, com esforço, decifrei a etiqueta.
A façanha fora planejada – tinha até levado papel e lápis para anotar o nome, que me era inteiramente desconhecido. Hoje só me lembro de que era francês. Mas com toda a clareza recordo quando, com o coração disparado, entrei numa perfumaria elegante no centro da cidade, que já não existe há tempos.
Intimidado pelas embalagens brilhantes e assombrado com as nuvens de jasmim, rosa, almíscar e alfazema que enchiam a loja, caminhei hesitante até o balcão. Naturalmente, a vendedora não conteve o sorriso quando o pequeno freguês pediu o perfume. Afinal, eu nem sabia pronunciar direito a palavra francesa.
E, é claro, afligi-me terrivelmente até que, em desespero, puxei do bolso da calça o pedaço de papel amassado com o nome escrito na caligrafia de menino da 2 série.
Aquele pequeno papel me salvou. A vendedora voltou da prateleira tendo nas mãos uma embalagem cor de creme. Olhou para mim, em dúvida.
- Quer mesmo este perfume? - perguntou.
Assenti corajosamente. Então ela me disse o preço. Engoli em seco, enrubesci, gaguejei para dizer que queria pensar um pouco mais e saí da loja. Humilhado e vencido, com as pernas bambas.
Minha mãe foi a primeira a perceber que eu não estava bem. Ao chegar em casa, fui direto para o quarto que dividia com meu irmão, dois anos mais velho.
Ele sentou-se na cama ao meu lado e, com paciência, foi me fazendo perguntas ate que lhe confessei a historia toda. Nem sei como ela conseguiu disfarçar o sorriso – em todo caso, imediatamente apresentou uma sugestão.
– Acho que o presente mais precioso que você pode dar à vovó é algo feito por você mesmo!
– Mas o que poderia ser? – Perguntei, já meio desesperado.
Começamos a pensar. Aí minha mãe teve uma idéia: por que não fazemos um estojo para a caneta-tinteiro de minha avó? Poderia comprar o couro, já cortado, na cidade. O pouco de dinheiro que eu tinha seria suficiente. E o resto eu faria sozinho.
Desanimado, aceitei a idéia. Em segredo, porém, meu coração ainda se agarrava a um vidrinho misterioso e brilhante, e à fragrância que ele continha, Fui à cidade comprara couro, a linha e uma agulha especial. Mas na verdade não tinha vontade de começar o trabalho.
Afinal, o que era um pedaço de couro ordinário, costurado desajeitadamente por um menino, comparado ao esplendor irradiado pelo frasco?
Finalmente me sentei à mesa da cozinha, peguei o saco de papel pardo que continha minhas compras e comecei diligentemente a cortar e costurar.
Enquanto enfiava a linha preta pelos furos no couro, comecei a apreciar mais o trabalho insignificante. Duas horas depois, já me orgulhava do lindo estojo azul-turquesa diante de mim. Espantado, percebi que me esquecera completamente do frasco resplandecente por uma tarde inteira.
Fiquei ainda mais orgulhoso na véspera de Natal. Quando minha avó desembrulhou meu pacotinho, seus olhos brilharam e me perguntou duas vezes: “Você fez mesmo isso pra mim?”
Sim. Fiz para ela. Especialmente para ela. E, assombrado, percebi que minha avó grisalha, levemente curvada, ficou feliz como uma criança. Ela me abraçou, beijou meu rosto e disse obrigada em meu ouvido muitas vezes. Passou a noite toda com o estojo nas mãos.
Daquele natal em diante, o estojo azul passou a ficar sempre sobre a cômoda. Ela não o escondeu atrás de uma porta de armário ou dentro de uma gaveta. Sempre que colocava os óculos para escrever, ia até a cômoda, pegava o estojo e tirava uma caneta de dentro dele. E, quando tinha visitas, dizia, com orgulho na voz: “Meu neto Oliver fez para mim!”
Minha avó não viveu até o Natal seguinte. Sua partida me fez mergulhar em minha primeira experiência de verdadeiro desespero.
Aprendi de que forma dolorosa a perda de alguém que amamos se grava em nossa vida.
Uma Noite minha mãe veio falar comigo, trazendo algo.
Era o estojo de couro azul-turquesa. Conversamos muito tempo sobre minha avó. Ela morrera tão de repente! Mamãe não tentou me consolar. Disse apenas:
– Você tem idéia da felicidade que deu a sua avó com este presente?
Depois pediu que eu ficasse com o estojo e o guardasse.
Deste então, o estojo azul-turquesa me acompanha. Traz muitas recordações de minha infância: uma perfumaria elegante, uma vendedora que riu de mim, um frasco brilhante.
Mas, acima de tudo, faz-me lembrar de minha avó e do prazer que ela sentiu. E de que, aos sete anos, tive dúvidas com relação a um presente.
Esse problema, nunca mais eu tive. (Oliver Stahl)

O calor e o veraneio

O verão em Porto Alegre sempre foi um dos maiores problemas para os menos abastados, porque os ricos sempre tiveram seus ranchos em Tramandaí, Cidreira e Torres, especialmente aqueles de origem alemã ou italiana.
Entretanto, entre os ricos que não podiam se afastar por muitos dias da capital, dadas as suas atividades, foi crescendo o desejo de aproveitar as belas praias que, próximas a Porto Alegre, circundam o Guaíba. Foi o saudoso Dr. Mário Totta, tristezense de coração, que começou a preparar o terreno e semeou a semente, que tanto progresso trouxe para o nosso bairro. Festas eram organizadas nesse ‘distante arrabalde’ e milhares de pessoas para cá acorriam aos domingos, quando a canícula da cidade era insuportável. O meio de transporte era o vapor e o trem. Foram criados maravilhosos balneários na Tristeza, Pedra Redonda, Leblon, Ipanema, Espírito Santo, Guarujá, Vila Assunção e Belém Novo. Estes balneários não foram privilégio dos ricos, mas ao contrário, da classe média e pobre.
Hoje, com as estradas pacimentadas e os meios de locomoção modernizados, gastamos, para atingir o mar, mesmo tempo que no início do século se gastava para vir da cidade até aqui. Além do mar ser mais agradável, ainda surgiram problemas como nossas praias fluviais, que as autoridades não conseguiram resolver: poluição, implantação de malocas e, mais recentemente, posse pura das bocas de rua que dão acesso às praias: Dr. Mário Totta, Pedra Redonda, Vila Conceição e outras pelo Ipanema.
A POESIA – Qual de nós, na idadew dos 15 aos 20 anos, não sentiu aquele impacto que nasce nas profundezas da alma, ao se deparar solitário no alto de uma colina, provocando uma inspiração poética?, que existe em todo ser humano civilizado, infelizmente, nos dias de hoje tende a desaparecer. A vida atribulada pelos constantes veículos de comunicação estridentes e imorais não deixa tempo para nossa juventude meditar, pensar em temas sadios que enriquecem o espírito e purificam a alma. Os morros que circundam nosso arrabalde sempre foram os preferidos dos poetas, que para cá vinham nos fins de semana. Em nossas crônicas já citamos muitos versos deles.
Existem dezenas ou centenas de poesias inspiradas em nossas colinas e nosso Guaíba, não só feitas por poetas que as publicam, mas principalmente por jovens que escrevem para guardar. Em 1940, nós escrevíamos:
“Lindas ondas que cuspiam
Um rochedo desenhado,
Lindas ondas que vizinham
Um recanto abandonado.
Batem, rebatem e definham,
Musicam como um alado,
Lindas ondas que aninham
Um sonho sempre lembrado.
Vivem sempre, eternamente,
Ondas que pulam e que brilham
Tornam o mundo iluminado.
Fazer nascer incosciente,
Ondas que por dentro banham
Um coração algemado.
(do livro Revelando a Tristeza Vol 2, de Roberto Pellin)

Festas de fim de ano

Enfim, mais um final de ano. Não posso deixar de ser saudosista após certa idade. Mas os Natais de minha infância eram bem diferentes destes de agora. Não havia muita correria nem exaustão para chegar às compras. Natal era confraternização e não guerra. Era sagrado. Como o amor em todas as suas manifestações.
Uns quinze dias antes do dia 24 de dezembro, meu pai e eu, corríamos para a esquina para adquirir nossa árvore de Natal. Ali carreteiros vindos da serra, comercializavam pinheiros de vários tamanhos. A árvore era natural. Não era de plástico. Naquela época todo mundo tinha um pinheiro de verdade. Não se falava em desmatamento. Mesmo porque não existia desmatamento desenfreado.
Meu tio Joãozinho, por ser bastante teatral, era sempre o Papai-Noel. Mas ele distribuía mais sorrisos do que presentes.Não lembro de grandes pacotes recebidos nos Natais da minha infância. Mas ganhei presentes significativos e muito esperados. Como minha bicicleta com rodinhas. Para meu aprendizado e equilíbrio. E os vestidinhos acompanhados por chapéus, bolsas e sandálias. Meu pai ensinou que se vestir elegante, era sinal de educação.
Bem visível na minha lembrança, era o passeio que eu dava com meu pai, pelo centro de Porto Alegre. Existia um armazém chamado Riograndense na Av. Alberto Bins com uma vitrine encantadora. Nela um Papai-Noel gesticulava com a famosa varinha de marmelo. Meu pai dizia, que ele só presentearia crianças comportadas. Com a varinha de marmelo bateria nas mais atrevidas. Eu era fascinada pelo espírito daquela vitrine. O Papai-Noel era um compensador do bom comportamento. Um justiceiro. Eu o respeitava.
A mensagem que aprendi na minha infância é que a felicidade independe de muitos presentes e ostentação.E, que a surpresa sempre acontece. Como acontecia com meu pai. Durante as Festas de Fim de Ano ele era sempre surpreendido com a chegada, inesperada e farta,de uma enorme cesta natalina.Que fazia meu pai enaltecer ainda mais, suas amizades.
Foi com meu pai que aprendi a cultivar e respeitar os amigos. Tendo pela vida sempre muito amor, fé e simplicidade. Jesus nos orientou “Amai-vos uns aos outros”. Esse conceito de amor representa a posição que devemos manter. Assim, as comemorações tornam-se inesquecíveis. Assim, a alegria permanece. Na casa de meus pais uma única garrafa de champanhe era sinal de festa. Depois chegava o dia 31, o Ano Novo. E renovavam-se esperanças de dias melhores. Com espaço para aprendizado, alegria e renovação. Feliz Natal e Próspero Ano Novo. (Ana D´ Ávila anadavila@cszonasul.com.br)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Presente de Natal

Nosso presente de fim de ano é a figura linda e esbelta de nossa "Garota CS Zona Sul 2010", Isabel Magalhães. A beleza dela é para encantar todos os nossos fiéis leitores. Com isso, estamos desejando a todos um grande e Feliz Natal, na certeza de que o filho de Deus derrame sobre todos nós todas as bençãos cristãs. Almejamos também um 2011 repleto de felicidade!