Era para ser uma surpresa. Mas foi muito, muito além disso.
Eu tinha 7 anos naquele mês de dezembro e estava com um problema: mais uma vez era preciso dar um presente de Natal a cada membro da família.
Eu era muito apegado à minha avó. Ela amava os netos incondicionalmente e era sempre brincalhona, como só as pessoas sábias conseguem ser. Em troca, nosso amor por ela era imenso.
Para mim, um presente especial teria de ser algo que ela achasse particularmente precioso. Eu já tinha uma idéia: sempre observava minha avó no ritual de se arrumar. Ela era muito cuidadosa com a aparência: vestia-se com esmero, penteava-se meticulosamente – e no fim de tudo abria uma gaveta da cômoda, de onde tirava com cuidado um frasco lapidado de perfume. Borrifava o pescoço com uma ou duas pequenas nuvens do vaporizador e depois o frágil vidrinho desaparecia novamente dentro da cômoda.
Tinha de ser aquele perfume! Quando não havia ninguém por perto, abri a cômoda de minha avó, tirei com cuidado o frasco e, com esforço, decifrei a etiqueta.
A façanha fora planejada – tinha até levado papel e lápis para anotar o nome, que me era inteiramente desconhecido. Hoje só me lembro de que era francês. Mas com toda a clareza recordo quando, com o coração disparado, entrei numa perfumaria elegante no centro da cidade, que já não existe há tempos.
Intimidado pelas embalagens brilhantes e assombrado com as nuvens de jasmim, rosa, almíscar e alfazema que enchiam a loja, caminhei hesitante até o balcão. Naturalmente, a vendedora não conteve o sorriso quando o pequeno freguês pediu o perfume. Afinal, eu nem sabia pronunciar direito a palavra francesa.
E, é claro, afligi-me terrivelmente até que, em desespero, puxei do bolso da calça o pedaço de papel amassado com o nome escrito na caligrafia de menino da 2 série.
Aquele pequeno papel me salvou. A vendedora voltou da prateleira tendo nas mãos uma embalagem cor de creme. Olhou para mim, em dúvida.
- Quer mesmo este perfume? - perguntou.
Assenti corajosamente. Então ela me disse o preço. Engoli em seco, enrubesci, gaguejei para dizer que queria pensar um pouco mais e saí da loja. Humilhado e vencido, com as pernas bambas.
Minha mãe foi a primeira a perceber que eu não estava bem. Ao chegar em casa, fui direto para o quarto que dividia com meu irmão, dois anos mais velho.
Ele sentou-se na cama ao meu lado e, com paciência, foi me fazendo perguntas ate que lhe confessei a historia toda. Nem sei como ela conseguiu disfarçar o sorriso – em todo caso, imediatamente apresentou uma sugestão.
– Acho que o presente mais precioso que você pode dar à vovó é algo feito por você mesmo!
– Mas o que poderia ser? – Perguntei, já meio desesperado.
Começamos a pensar. Aí minha mãe teve uma idéia: por que não fazemos um estojo para a caneta-tinteiro de minha avó? Poderia comprar o couro, já cortado, na cidade. O pouco de dinheiro que eu tinha seria suficiente. E o resto eu faria sozinho.
Desanimado, aceitei a idéia. Em segredo, porém, meu coração ainda se agarrava a um vidrinho misterioso e brilhante, e à fragrância que ele continha, Fui à cidade comprara couro, a linha e uma agulha especial. Mas na verdade não tinha vontade de começar o trabalho.
Afinal, o que era um pedaço de couro ordinário, costurado desajeitadamente por um menino, comparado ao esplendor irradiado pelo frasco?
Finalmente me sentei à mesa da cozinha, peguei o saco de papel pardo que continha minhas compras e comecei diligentemente a cortar e costurar.
Enquanto enfiava a linha preta pelos furos no couro, comecei a apreciar mais o trabalho insignificante. Duas horas depois, já me orgulhava do lindo estojo azul-turquesa diante de mim. Espantado, percebi que me esquecera completamente do frasco resplandecente por uma tarde inteira.
Fiquei ainda mais orgulhoso na véspera de Natal. Quando minha avó desembrulhou meu pacotinho, seus olhos brilharam e me perguntou duas vezes: “Você fez mesmo isso pra mim?”
Sim. Fiz para ela. Especialmente para ela. E, assombrado, percebi que minha avó grisalha, levemente curvada, ficou feliz como uma criança. Ela me abraçou, beijou meu rosto e disse obrigada em meu ouvido muitas vezes. Passou a noite toda com o estojo nas mãos.
Daquele natal em diante, o estojo azul passou a ficar sempre sobre a cômoda. Ela não o escondeu atrás de uma porta de armário ou dentro de uma gaveta. Sempre que colocava os óculos para escrever, ia até a cômoda, pegava o estojo e tirava uma caneta de dentro dele. E, quando tinha visitas, dizia, com orgulho na voz: “Meu neto Oliver fez para mim!”
Minha avó não viveu até o Natal seguinte. Sua partida me fez mergulhar em minha primeira experiência de verdadeiro desespero.
Aprendi de que forma dolorosa a perda de alguém que amamos se grava em nossa vida.
Uma Noite minha mãe veio falar comigo, trazendo algo.
Era o estojo de couro azul-turquesa. Conversamos muito tempo sobre minha avó. Ela morrera tão de repente! Mamãe não tentou me consolar. Disse apenas:
– Você tem idéia da felicidade que deu a sua avó com este presente?
Depois pediu que eu ficasse com o estojo e o guardasse.
Deste então, o estojo azul-turquesa me acompanha. Traz muitas recordações de minha infância: uma perfumaria elegante, uma vendedora que riu de mim, um frasco brilhante.
Mas, acima de tudo, faz-me lembrar de minha avó e do prazer que ela sentiu. E de que, aos sete anos, tive dúvidas com relação a um presente.
Esse problema, nunca mais eu tive. (Oliver Stahl)
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